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GERAL DESENVOLVIMENTO

Mangas para exportação: o milagre da primeira barragem subterrânea do Brasil

São Mamede foi o palco de tal experimento, na Fazenda Pernambuca, de Clóvis Lima

17/07/2020 11h27 Atualizada há 3 meses
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Por: SE LIGA SERTÃO
Fruticultura é o setor agropecuário mais intensivo na geração de emprego e renda por hectare
Fruticultura é o setor agropecuário mais intensivo na geração de emprego e renda por hectare

As regiões agrestes da Sardenha, segunda maior ilha do Mediterrâneo, a leste da península da Itália, foram umas das primeiras do mundo a testemunhar o barramento dos lençóis freáticos através de diques construídos abaixo do nível do solo. Ali, tal como na Sicília e na Calábria, os romanos empreenderam tais obras para ter mais confiabilidade no suprimento dos poços e possibilitar hortas e pomares com uvas e oliveiras numa região com precipitações variando de 390mm a 690mm em suas áreas costeiras.

De lá para cá foram utilizadas em diversas partes do mundo, como norte da África e Índia, mas foi somente na década de 80 que o semiárido nordestino e esta preciosa e milenar tecnologia foram apresentados um ao outro.

Clóvis da Nóbrega Lima é figura conhecida em São Mamede. Sobrinho de Janúncio Nóbrega e com uma parentela recorrente na política local e estadual, herdou de sua mãe Maria da Glória, Glorinha, a fazenda Pernambuca.

Nascido no Recife, juntou-se à família de usineiros Tavares de Melo para fundar na cidade paraibana de Pedras de Fogo, em 1953, aos 28 anos de idade, a Maguary. Inicialmente transformando em sucos a produção local de abacaxis, em 1974 abriu uma fábrica em Bonito, no Pernambuco, e enveredou para outros sabores, como caju, seu produto símbolo. Foi vendida em 1984 à Sousa Cruz e desde então passou pelas mãos de multinacionais como Nabisco, Kraft Foods até que, em 2009, foi recomprada pelos Tavares de Melo, também proprietários da Dafruta.

Após a venda da Maguary, Clóvis voltou-se a suas raízes no semiárido. Tendo viajado muito pelo mundo, ali tomou conhecimento das milenares barragens subterrâneas europeias. Entrou em contato com um grupo da Universidade Federal do Pernambuco, liderado pelo professor Waldir Costa, que há algum tempo estava pesquisando este modelo.

Numa região onde só se construíam açudes, quem mais bebia água não era o homem, nem o gado, nem as plantas: era o sol. Segundo estudos, a perda média por evaporação é de 2 metros de lâmina d’água por ano: esmagadora parte da redução do volume dos açudes é decorrente simplesmente da evaporação, não do uso. O que praticamente não ocorre quando a água está sob a proteção do solo, quase imune ao calor do sol e à secura dos ventos.

Assim, em 1986, foi construída a primeira barragem subterrânea de que se tem notícia no nordeste brasileiro, na Fazenda Pernambuca, município de São Mamede, Paraíba.

A fazenda de 144 hectares possuía 66 hectares compostos de aluviões e terraços aluviais, na várzea do rio do Papagaio. Projetou-se uma barragem subterrânea com 200 metros de extensão por, em média, 4 metros de profundidade, em trincheira aberta com trator de esteira e em parte preenchida com argila compactada e em parte revestida com lona plástica recoberta pelo solo escavado. Tal barragem armazenaria no solo encharcado 280 mil metros cúbicos de água nos limites da propriedade e mais 159 mil metros cúbicos várzea acima, em área de propriedades adjacentes.

A montante, seis poços amazonas, com 2 metros de raio, foram projetados para captar 20 metros cúbicos por hora cada. Bombeando 8 horas por dia, 10 meses por ano, foi possível irrigar por meio de microaspersão 46 hectares cultivados com manga Tommy Atkins, destinados à exportação. Ainda se criava gado em regime de confinamento e se plantava capim, milho e feijão diretamente na calha viva, sem necessidade de irrigação, mas valendo-se da subirrigação, isto é, as raízes das plantas alcançavam a água rasa sob o solo.

Quem chegou até aqui na leitura desta história, ou quem a presenciou com seus próprios olhos e apenas refresca sua memória, pode se perguntar o que tem de errado. Sim, porque há muita gente cética no mundo e, para alguns, sempre tem algo de errado, nada pode ser bom demais e ao mesmo tempo ser verdade. Tomé teve de ver Jesus para acreditar no que todos já diziam: o Mestre havia ressuscitado. Alguns nem vendo creem. Mas este milagre, caros leitores, não apenas ocorreu como tem explicação racional, lógica, matemática e pode ser replicado. Inúmeras vezes. Em série.

Os aquíferos aluvionares, isto é, as áreas de várzea, de baixio, junto aos leitos intermitentes dos cursos d’água, perfazem 4,5% das terras do semiárido nordestino. Estes são os locais onde é possível construir barragens subterrâneas. Pode parecer pouco, mas 4,5% dos mais de 900 mil quilômetros quadrados do semiárido totalizam mais de 4 milhões de hectares.

Os dados mostram que, em média, um hectare ocupado por fruticultura gera 1 emprego direto e até 2 indiretos. Além disso, gera milhares de toneladas de alimentos e milhares de reais na sua comercialização, gerando impostos, dinamizando as economias locais, acumulando capital que pode ser reinvestido em outros setores. Compare-se isso ao custo baixo de - perdoem-me a simplificação - uma lona.

Deveria ser prioridade número um de qualquer gestor público do semiárido universalizar a adoção de barragens subterrâneas conjugado a um projeto bem estruturado para capitalizar todo seu potencial na forma de produção agropecuária, trazendo prosperidade há muito sonhada ao sertão nordestino e seu povo.

Neste pedaço de mundo há sol, há terra fértil, há gente trabalhadora e há, sim, água, faltam obras para controlá-la. Nesta seara, há a técnica, há o maquinário, há a mão de obra, faltam visão e vontade política.

Gustavio Morais

Guia da Embrapa - BARRAGEM SUBTERRÂNEA: ÁGUA PARA PRODUÇÃO DE ALIMENTOS

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